Disparos para o alto foram efetuados pela polícia para passar, aos moradores da Cidade de Deus, uma pedagógica lição de como pular carnaval. Um caso de extrema exceção, originado por uma ação individual de alguns Policiais da UPP e que ocasionou o estranhamento da população com relação à integridade moral destes PMs (recém formados). Contudo, tal pressentimento das pessoas não passou de um susto, um caso isolado, que não pode de forma alguma comprometer a moral da instituição conhecida como UPP (Unidade de Polícia Pacificadora). Assim, para reforçarmos esta idéia, está abaixo: a nota da PM e o depoimento do Galvão Bueno da segurança pública, Rodrigo Pimentel.
“Lamentamos o ocorrido, que já está sendo apurado de forma isenta, mas ressaltamos que se trata de um fato isolado que foge aos padrões da polícia pacificadora. Informamos ainda que os policiais militares envolvidos já foram identificados e afastados de suas atividades operacionais até a conclusão da sindicância”, diz a nota da PM. (g1.globo.com/)
Bem, se você acreditou nisso tudo aqui em cima, saia do vaso, pois essa merda aqui é um pouco maior. A UPP da Cidade de Deus foi inaugurada no dia 16/02 de 2009. Será que ainda não houve tempo de uma conversa mais íntima e amigável entre os policiais e os moradores? Do tipo: “Bom dia, como foi seu carnaval, assistiu aos desfiles, viu a Mangueira entrar? (risos)”. Para Rodrigo Pimentel a culpa é dos moradores, que ainda não compreenderam a autoridade policial, e dos policiais, que ainda não entenderam a missão da UPP. Que puta mal entendido, não dos moradores ou dos PMs, mas do Pimentel.
Pois bem, na verdade, para o engano do “Galvão”, mal compreendido é o Estado. Que quer empurrar reto acima sua vontade de ordenar territorialmente e espacialmente as comunidade e sua população. Contudo, está aí uma tarefa não muito fácil. Fazê-lo de maneira conflituosa e alarmante só trariam quedas na popularidade do governo e se demonstraria, em longo prazo, ineficiente. É neste momento que a idéia de ocupação das comunidades pela polícia é vista como uma possibilidade (devido à experiência na Santa Marta). É neste bojo que nasce a idéia de pacificação, de uma cruzada rumo às colinas.
Acreditou-se assim numa saída para o problema da falta de controle sobre o tráfico armado, da necessidade de um projeto de cidade, que conseguisse transformar favela em atração turística (para os megaeventos) e que botasse ordem na população e no espaço favelado. De fato, tudo isso seria alcançado de forma tranqüila se não fosse, é claro, as exceções e a corrupção . Fizeram-nos acreditar num suposto sincretismo dos policiais das UPP. Porém, o que foi a Operação Guilhotina, a necessidade de uma cartilha de abordagem policial na Santa Marta e os tiros pro alto na Cidade de Deus? Tantas exceções seriam somente coincidência ou uma crise dentro da polícia, o que aconteceu com os policiais puritanos das UPPs? Talvez isto seja obra de uma interpretação mal feita de Rousseau, ao invés do homem, puro por natureza, se corromper pelo convívio em sociedade, o policial em formação na academia, puro enquanto aprende a doutrina da PM, se corrompe ao trabalhar com a rudez do mundo lá fora.
É preciso para de olhar para uma regra de policiais supostamente incorruptíveis e de ignorar as exceções dos atos criminosos de alguns PMs delatados, principalmente os das UPPs. O governo se utiliza das políticas de segurança pública para sua própria proteção exclusiva e das classes dominantes. Será que a regra geral não seria a presença destas exceções? Até quando teremos que aturar este sistema e sermos obrigados a tapar nossos olhos para as corrupções? Na realidade, o paradigma ordem x corrupções (divulgado pela grande mídia) deveria ser substituído pela equação ordem+corrupção. Pois a corrupção não é antagônica ao Estado, ele a utiliza como forma de controle de classe (milícia, abusos de poder, arrego do tráfico). A população não tem que compreender a autoridade policial, que só a prejudica e a furta de seus direitos e dignidade.
Podemos até aceitar o fator positivo das UPPs em abrir uma porta de diálogo entre comunidade e Estado que antes estava fechada. Mas, além disto, precisamos nos perguntar qual é o preço que cada comunidade está pagando por este canal de conversa, que oferece a posse do microfone apenas ao governo.
Uhul!!! Arrasou!!!
ResponderExcluirAdorei a analogia ao homem de Rousseau. Que menino culto, hein...hahaha
Brincadeira!!
Fora as piadinhas de duplo sentido, tenho que concordar com sua visão quanto aos policiais.
Eu conheço bons profissionais, mas os vejo como exceção. Aquela que pede propina nas blitzs, que extorque trabalhadores em comunidades afastadas, que atira em gente inocente sem motivo aparente, é a maioria que mancha o nome de uma instituição centenária.
E fico triste diante desses acontecimentos.
Fico indignada em ter que ouvir sempre as mesmas desculpas esfarrapadas quando esses erros chocantes são cometidos por aqueles que deveriam nos proteger.
E fico preocupada quando ouço os moradores das favelas ainda não pacificadas afirmarem que a UPP é sua única saída. Não que eu prefira o controle do tráfico, mas também não quero uma polícia violenta e autoritária.
E não me venham com esse papinho de "policial se corrompe porque ganha pouco". Isso é conversa pra boi dormir! Se fosse assim, professor, enfermeiro, bombeiro, gari, motorista de ônibus, todos que não fazem o tipo "Eike Batista" seriam pilantras.
Enfim, favela precisa de respeito, este negado desde sua fundação. Não é a presença da polícia que vai resolver todos os problemas. Polícia não alfabetiza, não oferece emprego, não implanta saneamento básico. Polícia protege e, pelo visto, até nisso tem falhado.
Mais falhas ainda tem o Estado. Responsável por todas essas funções, se preocupa mais com os turistas que aparecem pra assistir carnaval uma vez no ano do que com aqueles que dependem do mesmo pra acreditar num amanhã mais digno.
Vou guardar o restante pra gente discutir amanhã, tá? Beijo.
Valeu Gabriel. Domingo passado rolou mais um conflito entre UPP e moradores. Desta vez foi no morro dos Macacos. Parece que já é o terceiro em poucos dias. Desta vez, queriam controlar o volume de uma festa de funk e resolveram atirar para o alto. Houve feridos na confusão que ocorreu. Assim, para pacificar gente branca do asfalto, há diálogo, para pacificar favelado, bala. Viva a UPP - Unidade de Porrada em Pretos ou Pobres. Abaço. José Cláudio
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